A lição, a ética e a sociedade – by Gabriela de Oliveira

cartaz1Domingo o Rio Grande do Sul acordou mais triste. O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, apavorou a sociedade no ritmo que os números de vítimas cresciam. Começou em 30 mortos, e cresceu sucessivamente. O drama tomou conta das redes sociais. Logo, todas as rádios e emissoras de televisão falavam do assunto, que virou manchete dos mais importantes veículos de comunicação internacionais. Custamos a digerir o que estava acontecendo e, principalmente, a aceitar que 236 vidas foram abreviadas na segunda maior tragédia envolvendo fogo que o Brasil já viu.

O pavor não permitiu que no instante se buscasse culpados. Nem a complexidade do caso permitiria. A culpa era de quem? Da banda, que fez um show pirotécnico em um local fechado (irresponsabilidade clara)? Dos proprietários da boate, que permitiram que isso fosse feito, mesmo sabendo que o alvará concedido pelos bombeiros havia vencido em agosto passado, que o espaço não tinha saídas de emergência e com a boate superlotada? Da prefeitura, que permitia a abertura de uma boate sem o alvará? Da falta de fiscalização, que é sempre ignorada pelo famoso “jeitinho brasileiro”?

Infelizmente o caso é apenas a ponta do iceberg. Essa não foi a primeira e nem será a última boate que opera superlotada. Basta entrar nas festas “do momento” pelo país, que perceberemos que ocorre o mesmo. Também não é a única a burlar alvarás e não ter saídas de emergência. Alguns relatam que casas noturnas não têm estrutura alguma – em alguns casos, em dias de chuva, goteiras encharcam a pista de dança, passando pela parte elétrica no teto.

No dia pós-luto, começam a se fazer movimentações nas cidades. O tema, que deixou o estado em luto, tomou proporções mundiais e alertou organizadores de festas, pede atenção redobrada. A alegria, marca desses profissionais, foi deixada de lado por hora. A preocupação do momento é buscar soluções. Um grupo, organizado pelo promoter Bruno Nogueira, discutirá o assunto nesta terça-feira, no Rio de Janeiro. O fio condutor da conversa será a ética e o profissionalismo.

A palavra “ética” é derivada do grego ἠθικός, e significa aquilo que pertence ao ἦθος, ao caráter. Na prática, parece ser esquecida. Esquecida por profissionais que organizam eventos lotados. Esquecida por governantes que fazem vista grossa. Esquecida pelo público, que não cobra medidas urgentes. O luto continua, mas o momento serve para pegarmos as lições aprendidas com o ocorrido e transformarmos em soluções para os problemas ligados ao tema.

Até que ponto iremos para lutarmos por soluções? Até quando ficaremos passivos, esperando que as soluções sejam tomadas? O domingo foi deprimente, a semana será triste. Com o tempo, o tema deixará de ser manchete em jornais e a vida voltará ao normal. Menos a vida das 236 famílias que perderam seus filhos, netos, irmãos, sobrinhos e amigos no incêndio que marcou o país. Tenhamos ética, lutemos por ela e busquemos soluções.

Encerro o texto com um apontamento que fiz no Facebook, de um fato que me chamou a atenção.

Obama chora em uma tragédia: “Oh, como ele é um bom presidente. Um exemplo de homem.”
Dilma chora em uma tragédia: “Que politicagem braba. Tudo pra fazer campanha adiantada.”

Somos todos gaúchos, estamos todos tristes, mas precisamos lutar.

Por uma sociedade com mais ética.

Gabriela de Oliveira

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