A origem das tendências

"E hoje acho que é o que as pessoas seguem e mais querem saber. Porque se não for estudado o comportamento, como a indústria saberá o que o consumidor quer?" Selma Sudo

Para encerrar a semana acadêmica do curso de Design de Moda da Univates, de Lajeado, quem palestrou foi a representante da empresa de tendências Nelly Rodi no Brasil, Selma Sudo. Na ocasião ela apresentou o trabalho da empresa e falou sobre as propostas para o inverno 2012/2013.

Para Nelly Rodi, na temporada e palavra-chave será “revelação”. Na parte sociológica, as pessoas vão querer parar com a superexposição que vivem hoje. Entre as inspirações, estarão o tribal, os anos 30 e o glamour. O que implicará em um mix de minimalismo e excesso.

Entre as cores estarão tons acinzentados, de mármore, granito, cobre, marrom, verde, musgo, púrpuras, índigo, violetas, repolho roxo, uva, branqueados, esverdeados e acinzentados.

Os brilhos virão dos cristais e do ouro escuro.

Os tecidos irão variar dos tweeds, passando pelo jaqcuard, chegando a outros gastos.

Depois da apresentação, Selma nos concedeu uma entrevista, que você lê abaixo.

O que é um birrô?

Birrô, antigamente, no Brasil, era chamado de book de tendências. Na verdade em francês significa escritório. Birrô de estilo, é um escritório disso.

E esse trabalho vai muito além da moda, porque também há toda a parte de lifestyle, né?

Acho que essa é a principal finalidade dele. E hoje acho que é o que as pessoas seguem e mais querem saber. Porque se não for estudado o comportamento, como a indústria saberá o que o consumidor quer?

Por isso ele é essencial, é a base de todo o trabalho. Porque daí se sabe a querência do consumidor, o que ele quer daqui uns anos.

Nós recebemos sinais de todas as áreas e quando percebemos também queremos aquilo. Então, esse estudo e os resultados nos impressionam. Porque as pessoas dizem ‘eu não vou usar isso’ e quando vêem já estão usando.

Na moda existe o neologismo da “empurroterapia”, que é a pessoa ver tanto as peças que acaba gostando.

Começa na confecção, daí ela faz uma propaganda com algum artista, a peça usada ela vai pro desfile, pra loja. E a pessoa acaba recebendo tanta informação daquilo que, pessoalmente ela talvez não goste tanto, mas quando vê todo mundo usando, referências que gosta adotando, ela também acaba aderindo.

Por isso existe o processo das feiras e desfiles.

Querendo ou não são os desfiles que são o glamour da coisa. As pessoas acabam querendo ser aquela modelo.

Por isso que chamamos isso de um processo de “empurroterapia”.

O consumidor de moda consome um sonho?

A multinacional fala “Eu tenho muita anilina, que pode ser feita para fazer o vermelho. Então, vamos colocar que o vermelho será a moda.” Daí o birrô de estilo passa isso para a tecelagem, ela para a indústria, daí vai para a mídia. E a pessoa que nem gosta de vermelho, quando percebe, está gostando. Porque ela não tem saída. Todas as lojas estão com a cor.

Mesmo que a pessoa não queira, ela acaba comprando, porque é o que tem no mercado.

Quais os profissionais envolvidos na produção de um birrô?

No grupo da Nelly Rodi, que trabalha com uma forma diferente, existem três polos diferentes: o criativo, o sociológico e o de marketing. Outras empresas têm maneiras distintas de trabalhar.

No primeiro grupo são 36 profissionais que prevêem as próximas estações.

Depois vêm uma equipe para cada book, que pegam toda a informação produzida na reunião das 36 pessoas e fazem os temas.

Como é feita a definição do tema?

Teve uma reunião que eu fiquei bem admirada. Um dos componentes estava fotografando pelo mundo e trouxe várias imagens de vários lugares e surgiu uma, do Egito, de uma múmia que tinha sido encontrada.

Daí foi uma coisa muito forte para eles, porque logo depois teve uma repercussão grande do tema na mídia. Então eles resolveram trabalhar por esse lado, do mistério, o Egito.

Então, têm coisas que surgem para eles e eles seguem.

É uma coisa forte. A Nelly conta em uma entrevista o que ela estava achando da tragédia de 11 de setembro e como a agência estava sentindo aquilo. Então ela fala que antes de acontecer, ela fez todas as capas pretas, com um véu sobre o book,  bem fúnebre.

Só que ela sabia que não era crise, que era outra coisa. Então, tudo foi passando essa mensagem. Sabia-se que algo muito ruim iria acontecer, mas não o que.

Como eles trabalham muito com esse grupo, se reunindo a cada três meses para conversar, eles vão conseguindo esses sinais de comportamento, até eles chegarem a uma linha de tendência.

O número de birrôs é restrito (são 165 edições de verão e 190 de inverno, distribuídas no mundo todo). Como é feita a escolha de quem terá acesso a eles?

Quando a Nelly esteve no Brasil, ela falou que eu deveria, não selecionar, mas saber para que estava apresentando o material.

Nas feiras eu atendo a todos, não tenho restrição de venda. Mas sempre alerto os clientes de que se eles quiserem o próximo caderno, devem reservar. Porque corre o risco deles não terem.

E a partir do momento em que chega ao número total, não há a possibilidade de vender mais. O que pode haver uma troca entre os agentes.

Ela não quer perder essa característica, porque o forte dela é a consultoria pelo mundo. Então, ela diz que pode fazer o book de forma limitada.

Hoje algumas confecções, tecelagens e empresas de cosméticos querem algo diferente e exclusivo. E isso dá certa exclusividade.

Na tua opinião, hoje o Brasil já consegue criar as próprias tendências?

Sim, consegue. Hoje algumas empresas têm equipes que viajam para obter outras fontes. Não para copiar ou confirmar. Uma porque nem dá tempo disso, as coleções têm que estar prontas muito antes.

Eles vão para ter inspirações. Porque é diferente a pessoa viajar e ter isso lá.

Já há uma identidade própria na moda, então?

Sim. Hoje eu vejo profissionais brasileiros que estão se destacando. Eles pararam de copiar, porque viram que isso não resolve.

Hoje é fundamental ter um curso de moda e as empresas darem valor a esses profissionais. Porque antigamente as empresas contratavam os estilistas e esperavam que junto com eles viesse uma bola de cristal. Eles achavam isso normal. Chamavam o estilista e não davam informação para ele.

Hoje as empresas estão entendendo que é preciso dar aos profissionais condições de pesquisa. Porque eles não vêm com a bola de cristal. Há a criatividade e o mercado tem que dar as inspirações.

Estamos com um mercado de moda crescente, como tu enxergas isso?

Hoje uma marca pode ter, no mínimo de três a quatro profissionais. A única coisa que eu vejo e me preocupo um pouco, é que quase todos focam na confecção. E há os acessórios, calçados, outras áreas que também são interessantes de serem percebidos desde a faculdade.

E a moda está entrando em outras áreas, né?

Claro, principalmente em decoração que hoje está, como a confecção, mudando a cada seis meses. Antigamente, cama, mesa e banho tinham uma coleção por ano e ponto.

E como a indústria reage a cada nova tendência. Porque há uma diferença de trabalho de lançamentos de coleções fora do Brasil e dentro. Como funciona?

Lá fora há uma organização diferente e muitas empresas daqui começaram a perceber isso.

O que acontece é que março e setembro são dois períodos que as pessoas daqui mais viajam. E as vezes em março está tendo um certo tema nas lojas, que as empresas trazem para cá, achando que aquele será o tema da coleção inteira.

E lá, assim como eles tabelam as cores mês a mês, eles mudam os temas. Então tem épocas de lançamento para cada um. Aqui não se trabalha dessa forma. Eles lançam tudo junto.

E isso é ruim para o consumidor. Porque ele quer ir na loja a cada duas semanas e ver novidades. E como está havendo essa mudança de comportamento, o Brasil está querendo começar a fazer isso. A mudança de tecidos e temas mês a mês.

Ou então fazer toda a coleção e produção e separar as entregas mês a mês, que é o que é mais feito. Os representantes apresentam para os compradores uma mini-coleção nova a cada pouco espaço de tempo.

A moda ainda consegue inovar?

Sim. Embora ainda se inspire em outras épocas, tudo volta completamente diferente.

O que é inovar hoje?

É ousar. Não ter medo, misturar culturas. A marca que quer atingir um público mais ousado, deve trabalhar isso. Porque isso nos trás várias referências.

Acho que é por isso que várias confecções e estilistas gostam de trabalhar com o infantil, por poderem ousar.

No adulto eles não podem tanto. Pode em um tipo de consumidor. Abrange um pouco, com o resto tem que saber dosar. No infantil não. Com ele pode-se criar bem mais.

As tendências são efêmeras?

O que eu percebo é que há uma continuação de uma estação pra outra. Antigamente elas surgiam e terminavam na mesma temporada.

Um exemplo são as peles, que permanecem há um tempo, sempre mudando o animal. Mas a essência permanece. Só há uma evolução, não uma mudança brusca. E isso eu acho bom, que a pessoa consegue explorar mais.

Começou os listrados, vieram os xadrezes. Antigamente o brasileiro via o xadrez como roupa de festa junina. Hoje ele já é moda. Mas ele precisou ser adotado pelo surf wear, para o consumidor conseguir ver ele com outros olhos.

E fenômeno do fast e slow fashon? O que é melhor para a indústria e o consumidor?

Então, o que acontece é que nós sempre temos que inventar, criar novas formas de se expor. Por isso é importante para uma empresa ter alguém de marketing. Para ter essa sacada, essa mudança. Porque é a surpresa que os consumidores querem.

O consumidor está desejando se expor menos?

Sim. Olha quanto tempo a pessoa passava dentro de casa antigamente e repare quanto ele passa hoje. Por isso que a moda na decoração está crescendo e variando.

Chegamos a um ponto em que estamos conseguindo saber tudo, de todo mundo, que as pessoas estão querendo se guardar mais.

As tendências geraram novas profissões. Como tu vê isso?

Se formos ver, muitas profissões foram extintas. Então, obviamente têm que surgir outras para repor. Mas eu acredito que as que se foram também deixam saudades.

Por exemplo, cada vez mais se falam dos artesões. As pessoas estão com vontade de voltar a fazer o artesanato para ver se começa a se resgatar essas profissões que desapareceram.

Essas heranças não podem ser jogadas fora, mesmo surgindo novas profissões. Tudo isso é linkado.

E esse trabalho que a Nelly faz liga as tendências e o clássico, né?

Os básicos não saem da cartela de nenhuma indústria. E é quase isso que ela faz dentro de cada estação. Ela trabalha o básico e o fashion. Têm empresas que vão trabalhar só o básico, como as populares.

Como tu achas que o público vê a moda hoje? A moda ainda nos identifica?

Depende. No Brasil tem o consumidor que quer ser diferente e mostra isso na vestimenta. Ou quer ser parecido com alguém, há um mix.

Mas por exemplo, o consumidor japonês. Ele se diferencia onde? No visual. Então, ele tenta se montar. Lá eles têm tudo de ponta e querem mostrar o visual.

O mais comum aqui é tentar se parecer com outra pessoa que o consumidor tem desejo de parecer.

Por isso que todo mundo fala que o que a Gisele usa, vende.

Onde a pessoa pode buscar a tendência?

Hoje as empresas passam isso pro consumidor. Várias revistas falam. Agora, se ele quiser se antecipar, existem sites e cursos que falam disso, geralmente nas feiras de moda. Lá vai ter isso.

Texto e entrevista: Douglas Petry

Fotos: Rafael Delfino

Agradecimento: Curso de Design de Moda/Univates

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