Diálogo entre arte e moda

"O que eu faço em teatro, se fosse para a TV ou cinema, seria em pequenos nichos, desmontar a roupa, transformá-la em tecido e remontar. Eu não pego a peça e improviso. Recrio ela toda."

No terceiro dia de Semana Acadêmica do curso de Design de Moda da Univates, o estilista e figurinista Antonio Rabadan falou sobre sua carreira e trabalho.

Ele tem 14 anos de carreira e já no seu primeiro trabalho. Rabadan estudou arquitetura, mas largou o curso para entrar na moda e poder seguir a carreira com figurinos.

A história dele deu tão certo que hoje ele dá aulas de figurino na Feevale e colabora com vários espetáculos famosos no estado.

Entre seus estudos, está a arte, onde ele tenta entender se a moda é uma arte hoje. O figurinista deu uma declaração que nós adoramos e já está no nosso mural de inspirações. “A moda é a arte do hoje.”

Veja abaixo a nossa entrevista exclusiva com ele.

It – Conte um pouco do seu começo, desde a parte de cenografia até a migração para o figurino.

Rabadan – Eu estudava arquitetura e fui fazer um curso de teatro, lá eu acabei sendo convidado pra fazer um curso de longa duração, que serve para profissionalizar, para poder tirar registro e trabalhar no eixo Rio – São Paulo. E acabei enveredando por esse caminho.

Houve várias coincidências. A de eles precisarem alguém que desenhasse os figurinos, depois a verba do governo não ser suficiente para pagar um profissional, eu acabar assumindo essa parte e tendo um reconhecimento em cima disso.

Tu recebeste um prêmio, certo?

Eu recebi o Açoriano de melhor figurino de 1996. Era meu primeiro trabalho como profissional e já fui premiado.

Daí, automaticamente, a parte de ator diminuiu, porque a demanda de figurinos aumentava e eu me direcionava cada vez mais para essa parte.

Nesse meio tempo entrou a universidade de moda. Estudando, eu podia entender um pouco mais do assunto e saber de que forma isso se articulava com o que eu estava desenvolvendo no teatro.

Teu primeiro figurino veio de um guarda-roupa cheio de peças velhas. Até hoje tu trabalhas com reaproveitamento. Como foi e é trabalhar com isso?

Agora isso tá na moda, reaproveitar, ser ecologicamente correto. Mas eu acho que o teatro já nasceu sustentável.

Quando eu fiz os trabalhos em TV, conheci a Natália Duran (figurinista da Rede Globo), e ela mostrou que nesse meio também fazem isso. Eles têm uma verba insuficiente e têm que se virar. E o caminho é o reaproveitamento.

O que eu faço em teatro, se fosse para a TV ou cinema, seria em pequenos nichos, desmontar a roupa, transformá-la em tecido e remontar. Eu não pego a peça e improviso. Recrio ela toda.

Isso é legal para cinema e teatro, porque é horrível quando tu vais fazer um filme ou uma peça e o ator tem 70 anos e veste uma roupa nova. Dificilmente uma pessoa dessa idade ficará o dia todo com uma roupa assim.

A peça tem que ter uma vivência e um desgaste. E é meu trabalho procurar isso no material reutilizado. Esse pano já tem um puído e, mesmo que se faça uma roupa nova com ele, continuará trazendo essa imagem.

Pra figurino isso é excelente, pois o deixa verdadeiro para quem está usando e para a cena. Em cinema é muito mais trabalhoso. Por exemplo, em O Gladiador tem uma cena de uma cúpula de pessoas vestindo roupa branca. Aquilo não é branco, é areia. Porque o branco não é aceito na filmagem por causa do excesso de luz. Essas coisas não são sabidas pelo público, mas são importantes para quem faz o trabalho.

Tu fizeste Tv também, o que foi?

Sim, eu fiz trabalho em TV. Algumas coisas que eu fiz, tanto na PUC, quanto na UFRGS, foi fazer figurino para os curtas que os alunos desenvolviam.

Nós vemos a arte se expandindo hoje, tanto o cinema quanto o teatro. Como tu enxergas isso? É um gerador de trabalho para profissionais da tua área, né?

Sim. E dependendo da montagem, como novela, são vários núcleos a serem vestidos. Cada um tem um responsável. Em média são 150 pessoas a serem vestidas por dia em apenas uma obra.

Sem contar continuidade e outras complicações do processo. As roupas têm que estar lavadas, estarem em boas condições, têm que ter uma identidade proveniente de pessoas da moda.

Simplificando, os figurinos de TV e seriados são feitos por produtores de moda. Eles têm que produzir roupas para elas, depois transformar figurino para uma personagem. A gente diz que esse é um caminho novo, mas ele já existe há anos e só não era desvendado.

O trabalho do figurinista tem muitos detalhes?

Sim. Dependendo do figurinista, ele não faz acessórios. Eu gosto de fazer para construir a roupa inteira e ela ter a mesma identidade, serve para as coisas se comunicarem.

Às vezes a pessoa pode trabalhar com equipes distintas e, pelo processo ser muito rápido, tudo é feito correndo e acaba se desencontrando.

Então, quando o material é concentrado pela mesma pessoa ou equipe, diminui a parte de conversa com pessoas externas e é seguida a mesma linha de pesquisa e execução.

A roupa tem que servir para apresentar a personagem e contar um pouco da história ou ela tem que ser secundária?

Se formos ver um espetáculo e só conseguirmos prestar atenção no figurino, é porque aí há um problema. Com certeza ele será premiado, mas não está a serviço da história.

O ideal é quando assistimos ao filme, peça, ou novela e não conseguimos distinguir o que gostamos. Se foi a história, a trilha sonora, o figurino, se foi o ator, diretor. Aí há uma unidade cênica, que é o ideal.

Nesse caso, todos os que estão trabalhando conseguiram chegar a um consenso estético. E isso é complicado, porque qualquer pessoa, esteja ela começando ou não, tem dificuldade de ir além da moda.

A moda tem que atender ao mercado, a uma necessidade. O figurino trabalha isso e junto há uma necessidade cênica, uma necessidade pedida pelo texto, as necessidades do ator, uma tradução das ideias do diretor: é uma montagem futurista, é uma montagem introspectiva, é realista, é farsesca?

Na realidade, a palavra para quem quer trabalhar com moda ou figurino é “processo”. Ou criativo, ou de execução… É um processo e não uma coisa que se compre pronta.

Porque as pessoas quando vêm trabalhar ou estudar moda, pensam que é como ir ao shopping fazer compras. E isso é a única coisa que ela não faz. Se ela produzir um desfile, a única coisa que não fará é sentar na primeira fila para assistir. Ela pode varrer a passarela, mas não assistirá.

Qual a diferença entre fazer um figurino, um styling para desfiles e fotografar um editorial? Até que ponto um se conecta com o outro?

Eles se conectam a partir do momento em que todos têm um processo para isso. Eles se distanciam por serem veículos distintos.

Mesmo que eu tente aproximar vestindo uma personagem com roupas da moda, como em O Diabo Veste Prada, por exemplo, ali ele é um figurino. Eu posso estar usando aquela roupa de marca, ela tem que ter a ver com a personagem.

Uma coisa que ajuda a entender é: eu não sou esportista, não gosto de caminhar, de usar roupa mais leve, então eu não posso estar vestindo abrigo. Dentro do meu universo, preciso me vestir de acordo. Isso é o figurino.

Quando levamos para o editorial, eu quero comunicar alguma coisa, então eu posso usar elementos cênicos – se não for um editorial comercial. Se for, eu tenho que vender o produto.

O que direciona o editorial, é o foco. Se ele numa dona de casa, até uma personagem pode estar fazendo. Pode estar a Marieta Severo, da A Grande Família, posando como modelo. Mas daí é porque esse é o foco.

Tu observavas figurinos antes de trabalhar com isso?

Não. Tanto que fui trabalhar com isso por acaso. E até hoje eu olho para uma roupa e não sei dizer se é figurino ou moda.

Que figurinos de outras pessoas te marcaram?

Não sei te dizer isso. Mas eu gosto muito do trabalho do Almodóvar. Ele sabe falar com os espanhóis, ele fala da terra dele e traduz isso bem no filme, nas personagens e em quem ele chama para fazê-las, que sempre são estilistas.

Já teve Jean Paul Gaultier, Yves Saint Laurent, e isso é legal. Ele usa a linguagem de moda que aquela personagem poderia estar usando naquele momento.

Eu ainda não vi A Pele que Eu Habito, mas tem muito a ver com uma coisa que eu quero pesquisar. É a pele como figurino. Daí eu reflito se a pele que eu tenho no meu corpo é a que me traduz? Será que esse corpo que as pessoas vêem é o que me representa?

A roupa seria a pele que queremos mostrar para o mundo?

É uma segunda pele. Eu gosto da Katia Castilhos (estilista e autora de livros), que diz que nós temos um corpo morfológico, mas tentamos nos diferenciar um do outro através da roupa e das coisas que fazemos. Tudo o que fazemos nele nos distancia e conta algo da pessoa que está dentro dele.

Às vezes não nos damos conta do que vestimos. A pessoa que usa preto, sobreposições, a gente sempre conta algo de nós sem raciocinar, intuitivamente.

Na minha conversa de ontem com o Nakao, falamos sobre isso. Hoje a moda ainda representa quem a pessoa é?

Sim. Tem aquilo que comportamos, na minha opinião. A pessoa pode estar vestindo Dolce & Gabanna, mas se eu percebê-la primeiro, ao invés da marca, é porque ela comporta aquela roupa.

Agora, se ela entra no ambiente e eu só vejo a marca, como agregação de valor à pessoa, é porque ela não comporta a roupa. Aquilo não faz parte dela, do universo que ela vive, do que ela tem pra conversar ou fazer com as pessoas a sua volta.

Hoje em dia acontece muito das pessoas acharem que a roupa pode esconder a personalidade, o conhecimento. E isso não pode. Ela tem que ressaltar isso e fazer com que fique em evidência.

O que eu vejo de problema nisso tudo é que a moda está na moda.

Popularizou demais?

Isso. Além de que, vocês verão por aqui. O curso está na segunda turma de alunas. O legal é fotografar todas elas. E daqui um ano e meio, ou dois, fotografar de novo.

Elas vão se desmontando, porque no começo têm uma visão muito superficial do que é ser um trabalhador da moda. E nisso a moda se aproxima muito do teatro.

O trabalho nesses casos é muito assíduo. Aqueles momentos de brilho são efêmeros e rápidos. O trabalho do dia a dia é aquele de formiguinha, que é construído pouco a pouco para adquirir o conhecimento e encontrar o caminho.

Isso elas aprendem. Então os cabelos vão ficando menos coloridos, as roupas menos alternativas.

Sem falar da parte comercial. Porque entramos na faculdade achando que vamos sentar e criar, as coisas surgirão do nada, as pessoas entenderão e nos aplaudirão. Mas isso não acontece.

Quando uma pessoa é criadora, de fato, e assume isso dentro de uma empresa, o que ela menos recebe é aplauso e o que ela mais tem pela frente é trabalho.

Com a globalização tudo se misturou. Hoje você pode fazer moda de roupa, de comida, de tudo.

Moda e arte: quem se apodera de quem?

Vou te dizer que a arte e a moda sempre se confundiram, uma se apropria da outra. Se pensarmos na Monalisa, por exemplo, ela está vestida, aquela roupa tem alguma coisa a ver com aquele período histórico. Portanto, há uma apropriação da vestimenta, porque ela faz parte da construção da personagem.

Então, eu acredito que nós vemos isso hoje, mas já acontecia há muito tempo. Algumas coisas são datadas dos séculos XVIII, XIX e só foram assimiladas na moda nos anos 80. E o grande questionamento dessa apropriação é a pergunta que tanto se faz hoje: se moda é arte manifesta.

Isso gera discussão porque há uma incerteza, esse é um terreno híbrido, dependendo de como se olha, o recorte que faz, o caminho que se olha.

O que quero dizer com isso é que há um caminho que está sendo investigado, que continuará sendo e que pode demorar anos até chegar a uma resposta, ou não. Eu acho que não se chegará a lugar nenhum, será uma discussão eterna.

Uma coisa se apropria da outra. As performances, por exemplo, surgiram porque a arte sentiu a necessidade de dar movimento aos quadros e pinturas e precisavam de interação.

E quando houve a fusão, ainda no dadaísmo, isso tomou uma força grande nas artes plásticas. E hoje vários artistas vão lá e pegam Vogue, Louis Vuitton, outras grandes marcas e fazem críticas sociais em cima delas.

Daí está lá a modelo ou  performancer nua, fazendo isso.  Então, é cada vez mais difícil de dizer.

O que tu achas de figurinos populares, como de novelas, por exemplo, influenciarem a forma das pessoas se vestirem?

O trabalho do figurinista já é feito pensando nisso. Eu lembro da novela Laços de Família, quando a personagem da Vera Fischer apareceu vestindo um biquíni, tomando banho de piscina, e depois colocava um roupão de seda e se encontrava com o Gianecchini.

Aquela peça, na moda, vendeu horrores. Mas as pessoas não a queriam, mas sim o corpo da Vera Fischer e o Gianechinni, o sonho que estava sendo vendido ali.

E isso que a novela faz. Ela vende e é um meio de comunicação de massa. É muito mais comercial e menos artística. Os seriados e especiais seguem outro caminho. Eles não geram tanta venda, mas sim arte e questionamento.

Mas a novela e o figurino dela bebem da moda, do que está vindo e antecipam.

Busca-se uma referência fora do país para poder pesquisar isso, ou, hoje nem se vai mais para fora, se faz uma pesquisa interna dependendo do profissional. Mas a pessoa de novela suga desses processos da moda e põe em cena e dependendo de como aquela personagem é recebida pela mídia, daquilo que ele está fazendo, vira a moda do momento.

Eu não consigo falar disso e não citar a última personagem da Deborah Secco. O que está acontecendo na moda agora? É shortinho e sainha curtinhos, e isso é referente ao que a personagem dela usava.

Os figurinistas muitas vezes vêm buscar coisas no Sul. Principalmente Novo Hamburgo e Serra. Porque as marcas dão o seu showroom, do que está vindo para a próxima estação, para a novela, porque se isso aparece em uma personagem, vende.

Claro, dependendo da marca, ela fica possessa se a roupa que tem um valor agregado e é mais cara, aparece numa personagem de classe baixa. Mas mesmo assim vende.

Quando eu trabalhava em uma marca, tinham uns casacos que foram para a novela da Senhora do Destino, onde a Renata Sorrah era vilã, tinha uma péssima conduta. Mas uma peça – um casaco de couro – foi dada para ela. Vendeu muito e a personagem não era a protagonista, nem a boazinha da novela.

Porque ao mesmo tempo em que não havia a cena do romântico e belo, ela mostrava a imagem do poder. Era uma mulher forte e isso vendeu.

Isso quer dizer que nós abastecemos e reabastecemos.  A TV e o cinema se abastecem da moda ao mesmo tempo em que ela se abastece deles. Mas daí já numa parte comercial.

Tanto tu quanto o Jum Nakao disseram que tudo o que o estilista cria deve ter um significado para quem consome. Como tu enxergas os por quês da moda?

Depende pra onde direcionamos. Se a roupa é feita para vestir, atender a uma necessidade fisiológica, é uma coisa. Ela é feita para gerar venda.

Agora, se eu estou fazendo isso para questionar o que está acontecendo comigo e a sociedade que está em meu entorno, é outro tipo de roupa, com outro significado e valor agregado.

O que faz uma calça jeans da Diesel custar mais de mil reais e uma da C&A cento e poucos? Não é o material. Tudo bem que uma tem um pouco mais de qualidade que a outra, mas isso também é relativo, porque hoje em dia as peças produzidas em grande quantidade têm qualidade, senão não vendem.

Mas o valor agregado tem um questionamento muito maior em cima da peça. Então o que significa uma pessoa que usa Diesel? Ela é descolada, esportiva, bem resolvida na vida. É isso que ela paga quando compra a roupa. É o sonho de consumo que a peça está dando. Ela dá valor ao comprador.

Um grande exemplo disso é a China, que agora está em voga na mídia. Algumas tribos, um grupo mais dark, onde as meninas são meio bonecas, se montam todas. Porque eles fazem isso? Porque são muito parecidos e querem se diferenciar, mostrar sua diferença para os outros. Quando olhamos para isso vemos claramente a diferença.

Então, uma pessoa quando se veste de uma maneira está tentando mostrar ao outro que é diferente e isso nos faz cair novamente no filme do Almodóvar, qual a pele que eu habito?

No caso, para não sermos tão drásticos, mexemos na segunda pele, que é a roupa. Algumas pessoas nem fazem isso, mudam direto a própria pele. Tatuam-se, se enchem de piercings, tamanha a necessidade de deixar a carcaça que a move semelhante ao interno.

Hoje quem mexe com a primeira pele não é mais visto com tanta estranheza quanto era um tempo atrás, né?

A gente tinha um padrão. Hoje nós fugimos disso. As pessoas não querem ser mais um número. A gente quer atenção para si mesmo e não algo automático. Se tu fores ao restaurante e for bem atendido, com atenção, tu se sentirás diferente e voltará àquele lugar. É o que as pessoas buscam hoje.

Texto e entrevista: Douglas Petry

Fotos: Rafael Delfino

Agradecimento: Curso de Design de Moda/Univates

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