Jum Nakao e as mudanças na moda

"Eu vejo que são necessárias escolas que formem novos pensadores, pessoas que sejam capazes de fazer a diferença e não que entrem para continuar a reproduzir um modelo que já está desgastado e nos confina a ser um país reprodutor e não gerador de tendências."

No segundo dia da semana acadêmica do curso de Design de moda da Univates ao invés de palestra os alunos puderam conferir um workshop com o estilista paulista Jum Nakao.

Para quem não sabe, em 2004 ele fez um dos desfiles mais marcantes dos 15 anos de São Paulo Fashion Week. A coleção era toda feita em papel e foi rasgada ao final.

Nakao começou a carreira nos anos 80, trabalhou em grandes marcas e em paralelo fazia suas coleções autorais. Hoje ele ministra aulas e workshops pelo Brasil, ensinando jovens estilistas sobre o meio da moda e técnicas de costura.

It – Em uma entrevista você disse que entrou para o mercado da moda porque via no meio uma possibilidade de transformação e libertação. Seu começo foi nos anos 80. Como você vê esse panorama hoje?

Jum Nakao – Acho que por uma questão cultural do consumidor final, eles são menos capacitados do que anos atrás. Hoje as pessoas não fazem tanto uso da moda no sentido que eu enxergava na época.

Aquele era um momento em que se identificavam valores na forma que a pessoa se vestia. Isso caracterizava grupos e culturas através da indumentária. Por isso eu percebia essa possibilidade da moda criar esses hábitos. Era uma forma de utilizá-la para a transformação.

Hoje eu percebo que a ela perdeu um pouco a característica de identidade, de que através dela a pessoa mostre quem é. As pessoas usam muito mais a roupa do que a moda. Ela não expressa mais modos e expressa, hoje em dia, muito mais uma forma de se enquadrar no meio do que na cultura. Foi deixada de lado a questão dela como cultura, informação.

A moda passou a simplesmente estar, não ser.

Como você vê o mercado atual de moda nacional?

Hoje o número de escolas, o interesse, a mídia gerada, as semanas de moda e os pólos se profissionalizaram demais. Nos anos 80 não existia esse cenário. Mas ao mesmo tempo há um grande abismo entre quem pensa, estuda, desfila, faz e promove, da grande massa.

Eu acho que a sociedade ainda está marginalizada em termos culturais. E essa inclusão estético/cultural, a chamada economia criativa, através do design é fundamental.

Hoje nós temos uma economia de produtos e não uma economia criativa quando tratamos de moda. E isso precisa mudar rapidamente e estamos no momento certo. Hoje as pessoas podem consumir design por estarem inseridas economicamente.

O consumo não deixa de ser uma forma de educação, formação e exercer política, porque quando você compra uma marca, prestigia a ética e o produto dela, o comportamento, os comprometimentos e automaticamente está dando mais do que um voto. Está dando seu dinheiro para que ela sobreviva e se torne representativa dos seus valores no mercado.

Por isso precisamos cuidar para que não nos tornemos um país rico e burro, mas sim rico e com cultura.

Moda foi tua primeira opção profissional?

A primeira área que eu tentei foi na computação, internet e eletrônica nos anos 80. Só que o que eu percebi, foi que a escola da época não percebia todo esse potencial. Infelizmente nós temos um modelo de ensino que precisa ser repensado. Nós apenas estamos aptos e pensando em modelos que reproduzem padrões e não que geram novos. Naquela época eu queria pensar em comunicação, internet, interatividade, tudo aquilo que era novo.

Quando eu tentei, dentro da academia falar disso, o objetivo era trabalhar dentro de uma linha de produção. E nela tinha que produzir quantidade e não qualidade.

Eu vejo que são necessárias escolas que formem novos pensadores, pessoas que sejam capazes de fazer a diferença e não que entrem para continuar a reproduzir um modelo que já está desgastado e nos confina a ser um país reprodutor e não gerador de tendências.

O Brasil consegue criar sua própria moda ou ainda seguimos aquilo que é mostrado lá fora?

Não. Reflete muito pela questão do povo não se identificar com o que é Brasil, com o que são. Eles procuram parecer sempre gringos. E isso continuará, porque não há cultura o suficiente. Ela permite que a pessoa escolha seus caminhos, que se olhe no espelho e se goste. Falta a autovalorização, gostar de ser brasileiro. Isso ainda não está na essência e tem que ser construído.

É a falta de não termos produzido meios culturais maiores que futebol e carnaval ao longo de muitos anos. É óbvio que esse universo existe, mas é num meio ainda muito restrito. Isso acontece na música, nas artes plásticas, no cinema, na moda. Mas a parcela de pessoas que tem acesso a essas informações é muito pequena.

Você largou a Carmim para participar como label própria do Phytoervas Fashion. Conte um pouco sobre essa experiência.

Nos anos 80, antes de tudo, junto com mais dois jovens estilistas, eu pensei numa semana de moda. Nós lançamos aquilo que chamávamos de cooperativa de moda, onde desfilávamos trabalhos autorais, independente da indústria em que trabalhávamos.

Mas naquela época, moda ainda não estava na moda. Você ia numa banca de jornal e não encontrava revista de moda.

Quando a moda entrou na moda?

A partir dos anos 90, quando surgiram os eventos São Paulo Fashion Week e Phytoervas Fashion, que criaram um calendário oficial, revelaram novos talentos e passaram a promover novos estilistas.

Mas sempre dentro dessa parcela reduzida de formadores de opinião, nunca numa escala que afete a realidade. Para isso, é preciso a massa.

Voltando ao Phytoervas.

Nos anos 80 vimos que era muito cedo. Fizemos duas edições e paramos. Em 1996, a moda sofreu um boom de abertura de mercado, atenção da mídia e daí eu decidi que era de novo o momento de mostrar meu trabalho autoral.

Mandei meu projeto para a organização e ele foi considerado a revelação da edição. E a partir de então não parei de mostrar meus trabalhos autorais em paralelo à indústria, até que em 2002 migrei para o SPFW, onde desfilei até 2004, quando eu realizei meu último desfile, com as roupas de papel.

Eu ia mesmo te perguntar sobre ele. Ele foi um boom na mídia, todo mundo falou dele. Como isso refletiu?

Eu acho que foi um desfile que ultrapassou barreiras. Jamais esperava tamanha repercussão. Ele estabeleceu diálogo com as pessoas das artes plásticas, cinema e teatro.

Foi considerado o desfile da década quando o SPFW completou 10 anos. Além de que, foi convidado para representar o país no Ano do Brasil na França. E o Museu de Moda de Paris o considerou um dos desfiles do século.

Curadores de arte e pessoas do mundo inteiro enxergaram novas fronteiras, talvez menos estanques entre áreas, permitindo que hoje falemos de design/arte dentro de um novo contexto.

Abrangeu muito mais do que o mundo da moda. Hoje se falarmos sobre o desfile de papel, pessoas que nunca se interessaram por moda sabem do que se trata.

De onde surgiu a idéia de rasgar tudo no final? (Ele faz um paralelo com o jornalismo)

Talvez você não lembre de muitas palavras que você escreveu, ou das mais impactantes. Mas você se recorda da mensagem. Falte-lhe talvez a palavra, mas não o pensamento. Elas podem ser rasgadas, esquecidas, mas o pensamento permanece.

Na moda acontece o mesmo. Por mais que trabalhemos com a efemeridade, o passageiro, nela também tem que existir permanência. Precisa haver a percepção daquilo que também é imaterial, do que está por trás: o pensamento. Por isso foi rasgado.

Para mostrar que não importa qual seja o material, a roupa poderia ser feita no que fosse, mesmo em algo frágil como o papel, mas isso é o que menos importava, tanto que por fim nós mesmos rasgamos, destituímos o contato das pessoas com o material, para elas perceberem o que era imaterial, porque mesmo ele rasgado, destruído, permanecia na memória delas.

A intenção era justamente essa. Fazer com que as pessoas enxerguem o invisível. Até por isso que o nome do projeto é Costura do Invisível.

Como você enxerga o SPFW hoje, com uma comercialização maior do mercado e marcas que trabalham cada vez menos o conceitual?

Não é um problema do evento, nem das marcas, é cultural. O que modula o mercado é o consumidor. Se o público mudasse, a indústria de transformaria.

Se elas quiserem consumir coisas melhores, a indústria não terá como oferecer outra coisa. Portanto, nós precisamos capacitá-los. Devemos consumir coisas que nos tornem mais humanos e melhores.

Essa tua coleção gerou um documentário. Como foi a experiência?

Quando definimos o desfile de papel, decidimos o rasgo desde o início. Então, sabíamos que depois aquele produto não existiria mais. E gostaríamos de compartilhar o projeto com mais pessoas além das 1200 que estariam dentro da sala de desfile naquele momento.

Como foi um trabalho de 700 horas de execução, usamos mais de meia tonelada de papel, começamos a registrar desde as primeiras reuniões, todo o processo, para que mais pessoas percebessem toda a complexidade da realização. Para que aquilo realmente pudesse ultrapassar aquele espaço e tempo do desfile.

Como começou seu trabalho com papel?

Começou nesse desfile. Eu só escolhi o papel porque queria mostrar que a significância está além da insignificância da matéria.

O material não tem sentido, o que tem sentido é o resultado, aquilo que vai definir o meio. O que está entre o observador e o conteúdo.

O que lhe inspira na hora de criar?

Eu digo que é andar de bicicleta. Na verdade é uma metáfora.

Quando estamos em contato com o nosso interno, num passeio de bicicleta pela cidade e percebemos as coisas bonitas e feias. E essa conexão nos alimenta e faz criar algo para melhorar a realidade de onde moramos.

O que me inspira é a transformação do outro. É uma questão ética. E melhorar o outro é a minha. Acredito que modificando alguém, começamos a mudar o mundo.

O estilista hoje em dia tem a idéia, mas devido ao mercado não consegue transpassar o que realmente deseja?

Sim. O consumidor está longe de saber dos seus direitos.

Por que?

Educação e cultura. Nós temos muitas pessoas alfabetizadas, mas educar está muito longe disso. “Não jogue o papel no chão, não compre o que é mais barato, não tente levar vantagem.”

As pessoas procuram ter aquilo que é mais barato, em maior quantidade, mas eu acredito que esse não é o caminho.

Senão aquela pessoa que faz com carinho e ética tem que fechar porque há alguém que faz mais barato e todo mundo vai lá.

O seu começo no meio da computação influenciou sua carreira na moda? Como você enxerga a tecnologia no meio hoje?

A tecnologia é fundamental em qualquer área hoje, porque ela permite o “ctrl + z”. Se você errou, pode voltar. E a possibilidade de errar é fundamental para quem cria. Porque criando assumimos riscos. E mesmo com ela ainda existe o risco da não-aprovação do outro. Por mais que lapidemos muito, ainda pode haver rejeição.

A tecnologia não é um fim, ela é um meio. E as pessoas têm que fazer bom uso dele.

E como ela ajuda na moda?

Ajuda na troca de informações, possibilita a criação de novas plataformas criativas, outras colaborativas, permite que tenhamos uma capacidade de visão do corpo-humano, de materiais, facilita uma precisão de projetos que nunca tivemos. E ainda assim ela é pouco usada por medo.

Por que as pessoas têm medo?

Porque elas têm medo de, mesmo podendo errar, fazer isso. Quando as trazemos para o mundo real, vejo como elas têm medo.

Aqui (no workshop), elas não usam tecnologia. É só tesoura, fita-crepe e as mãos. E o fato delas terem se distanciado tanto permitiria que elas arriscassem mais. Mas ainda assim, ficam com medo.

Hoje em dia vale a pena investir num negócio de moda?

Vale a pena desde que se assumam riscos e se pense em novas plataformas comerciais e de produtos.

Se uma pessoa entrar no ramo para fazer o mesmo que uma marca de grife faz, os clientes preferirão comprar da marca de grife. Se ela fizer o mesmo produto que todos fazem, seguindo tendências, mas sem copiar, isso representa um pequeno espaço que é infinito.

Só que ninguém está a fim de fazer isso e ninguém ousou ir.

O que um bom profissional da moda precisa ter?

Para ser um bom profissional, a pessoa precisa ser extremamente curiosa, no sentido de investigar, não ficar na superfície. Ela precisa se interessar não apenas por moda, mas pelos hábitos das pessoas.

Pelos hábitos de leitura, de música, de tudo o que compõe o conteúdo das pessoas. A moda é uma forma de traduzir aquilo que elas são. Então, o profissional precisa estar conectado com o mundo e a partir daí pensar no que eles gostariam de criar.

Entrevista: Douglas Petry

Fotos: Rafael Delfino

Agradecimento: Curso de Design de Moda da Univates

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