We ♥ : chás

Faz tempo que não postamos nenhum We ♥, e hoje resolvi retomar a “divisão”.

Quem me conhece bem sabe que se tem uma bebida que eu amo é o chá. Talvez seja porque não bebo nada alcoólico ou por eu me acalmar só pelo fato de beber uma xícara dele.

E essa semana, entrevistando a especialista e teablender Carla Saueressig, me apaixonei mais ainda pela especiaria.

Logo no começo do papo, que rolou numa tenda de chás, Carla disse que o mercado desse tipo de bebida está em expansão no Brasil. Agora os brasileiros estão descobrindo as vantagens dessa iguaria e aproveitando muito ela.

O fato de o chá não ser muito consumido antes se deve à cultura nacional, que ligava o chá a doenças. Muita gente pensava que só quem bebia eram as vovós e os doentes.

No mundo, o chá é a segunda bebida mais consumida, só perdendo para a água. Mas se desconsiderarmos a China (seu berço), Índia e Japão, perde de longe para o café. Até mesmo na Inglaterra, onde existe o tal chá das cinco.

Nem tudo o que chamamos de chá é o que pensamos. Só deveríamos considerar o que vem da Camellia Sinesis, que gera os chás branco, preto e verde (não fermentado). Os de fruta e erva-mate são imulsões.

O nome chá só é falado na China, em países com a língua portuguesa e em parte do Japão. O resto do mundo chama de tea.

A Carla tem uma loja com mais de 250 tipos de chás. Lá, ela trabalha com seus clientes o olfato, transformando o ato de beber em prazer. Além disso, ela presta serviços de harmonização com outras bebidas, como a cerveja e o vinho.

Para terminar a entrevista, ela deixou duas dicas.

A primeira é que quando você receber visitas em casa, ao invés de oferecer apenas um café, é instigar o visitante a pedir um chá. “Quer um café e um chá?” ou Aceita um chá?”.

E a segunda é ótima para o verão. Substitua os sucos, refrigeirantes e afins por um bom chá gelado. Além de ter um sabor super bom, não engorda como os outros se não tiver açúcar.

E aí, a fim de um cházinho?

Beijos,

Gabriela de Oliveira

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De unhas feitas para o verão

Faz tempo que esmalte faz papel de acessório e segue tendências, assim como a moda. Prova disso é que toda vez que a Chanel aposta em uma cor ou efeito novo, o produto se torna tão desejado que esgota das lojas em um dia e cria filas enormes de espera. Sem contar nas outras marcas que se inspiram e fazem linhas inteiras com o novo tom.

E no verão 2012 não poderia ser diferente. Alguns tons de esmalte, efeitos de acabamento e shape de unhas se tornarão tendência. E para ninguém ficar por fora, fizemos um guiazinho.

Pra começar… E claro que no verão o esmalte dura menos, né? Até porque todo mundo lava a mão mais do que no inverno, daí tem piscina e praia que também ajudam a desgastar a camada que enfeita as unhas. Por isso, a dica de Lisa Logan, nail stylist de grandes nomes como Beyoncé, é usar uma boa base sob o esmalte. E quando ele começar a parder o brilho, aplique um top coat, que trará ele de volta à vida por mais uns dias.

Na parte dos acabamentos, saem os foscos e metálicos para dar espaço aos cintilantes e cremosos. Outra coisa que está voltando é a unha decorada. Mas não aquelas que foram moda antigamente, que deixavam o dedo parecendo um prato de porcelana. Agora existem adesivos com estampas gráficas bacanas para enfeitar.

O que também vale fazer – embora a gente odeie – é a tal da francesinha invertida, com a ponta escura. E pintar uma unha de várias cores, ou variar a cor em cada dedo, tá em alta. Mas não faça isso se você tiver mais de 15 anos ou não for dona de uma personalidade que segure o estilo.

O formato das pontas nesse verão varia para quem tem elas longas ou curtas. As alongadas podem apostar num stiletto ovalado (longo com a ponta redonda) e o canto bem arredondado. Já quem é mais chegada nas curtinhas, pode deixá-las quadradas com as laterais arredondadas.

Um cuidado bacana para quem vai pegar uma praia, é usar cores mais escuras nas unhas. Isso porque os mais clarinhos tendem a ficar amarelados com a exposição ao sol.

Achamos que duas palavras podem definir as cores de esmaltes desse verão: tropicalidade e diversão.

O amarelo está com tudo mesmo. Além das roupas que colorem as araras por aí, ele aparece nos esmaltes.

E não tem essa de “só fica bem em pele morena”, não. As branquinhas também podem usar, ainda mais se apostar em aneis e pulseiras de ouro. Só não vale jogar nada prata, porque a união das duas deixará a mão pálida demais.

Aqui também entra o lima, numa pegada verde fluorescente apagadinho, que deixará as unhas bem divertidas.

O azul já está aí há um tempinho. Ele surgiu logo depois do boom do verde (lembra?), mas demorou pra conquistar a mulherada.

Nesse verão ele vem com tudo. Desde os tons mais fraquinhos, como o celeste e puxando pro esverdeado, até mais vivos, como o turquesa (lindo, lindo, lindo!) e mais escuros, chegando ao marinho (para quem tem medo de arriscar).

Também vale apostar nos brilhos azuis, como os da linha Novos 70 da Impala.

O laranja, na nossa opinião, é um primo mais estiloso do coral, que já figura há tanto tempo no verão.

E nessa temporada, além do primo popular, outros tons alaranjados prometem bombar, desde os tons mais fracos até os mais fortes e vivos. Só cuide para não usar laranja fluorescente e ficar parecendo que você tem uma caneta marca texto na ponta dos dedos.

Vale apostar na tendência 70’s das roupas e usar um camel nas unhas.

Esmalte rosa não é novidade para ninguém. E nesse verão, pra variar, ele volta a figurar na lista de cores. Seguindo a linha romântica/girly, ele deixará as unhas mais fofas.

Os mais fraquinhos dão espaço ao rosa chiclete e, até mesmo o pink (Darlene) star.

Os vermelhos estão mais vivos do que nunca. Super sensuais, eles são a cara de qualquer verão.

Nessa temporada, aposte nos mais acesos, como pimenta, ou nos que puxam para o rosa e coral.

A função deles será de deixar uma sensualidade alegre.

E ai, com todas essas dicas de como deixar as unhas bonitas e os tons super alegres, dá ou não para se divertir?

Beijos e abraços,

Douglas e Gabriela

Pra usar já: amarelo

Uma das cores da estação, ao lado do branco e do azul klein, é o amarelo. Vale peça inteira, detalhe, estampa ou acessório. O que importa é usar e abusar do tom que é a cara do verão.

Vamos começar falando sobre um pouco do significado do amarelo. Porque sabe, né, todo mundo acredita um pouquinho em superstições. Hehehe

O amarelo é uma cor que desperta, que expressa leveza, descontração, otimismo. Simboliza criatividade, jovialidade e alegria. Ele ainda transmite calor, ilumina e descontrai.

Como é a cor base do dourado, simboliza opulência e prosperidade. É também uma cor que carrega grande energia. A parte mais quente do fogo é o segmento amarelado da chama. Transmite otimismo e está associada ao verão e ao calor.

Dito isso, vamos ao que interessa: a moda.

As morenas serão felizes com o uso do amarelo.  O contraste entre a cor e o tom de pele ou cabelo é ótimo. Já as mais branquinhas podem ter algumas dificuldades, porque o tom amarelado ressalta a palidez de quem está saindo do inverno e ainda não pegou uma cor.

As loiras ou castanhas de pele bem clara podem escolher amarelo mais fechado, com nuances alaranjadas. Outra opção é misturar o tom com outras mais escuras, como cinza mescla ou preto. E quem não quer arriscar, pode usar a cor nos acessórios.

Morenas podem – e devem – abusar do amarelo vivo, especialmente do pastel. Na hora de escolher as outras peças para compor a produção, vale lembrar que amarelo vai muito bem com azul e caramelo, além de acessórios do mesmo tom.

Veja abaixo algumas apostas nossas de peças para quem está a fim de “amarelar”.

As marcas escolhidas foram: Colcci, Cantão, Ellus, Ellus 2nd Floor e Maria Bonita Extra

E ai, a fim de voar para comprar sua peça amarela?

Beijos e abraços,

Douglas e Gabriela

A origem das tendências

"E hoje acho que é o que as pessoas seguem e mais querem saber. Porque se não for estudado o comportamento, como a indústria saberá o que o consumidor quer?" Selma Sudo

Para encerrar a semana acadêmica do curso de Design de Moda da Univates, de Lajeado, quem palestrou foi a representante da empresa de tendências Nelly Rodi no Brasil, Selma Sudo. Na ocasião ela apresentou o trabalho da empresa e falou sobre as propostas para o inverno 2012/2013.

Para Nelly Rodi, na temporada e palavra-chave será “revelação”. Na parte sociológica, as pessoas vão querer parar com a superexposição que vivem hoje. Entre as inspirações, estarão o tribal, os anos 30 e o glamour. O que implicará em um mix de minimalismo e excesso.

Entre as cores estarão tons acinzentados, de mármore, granito, cobre, marrom, verde, musgo, púrpuras, índigo, violetas, repolho roxo, uva, branqueados, esverdeados e acinzentados.

Os brilhos virão dos cristais e do ouro escuro.

Os tecidos irão variar dos tweeds, passando pelo jaqcuard, chegando a outros gastos.

Depois da apresentação, Selma nos concedeu uma entrevista, que você lê abaixo.

O que é um birrô?

Birrô, antigamente, no Brasil, era chamado de book de tendências. Na verdade em francês significa escritório. Birrô de estilo, é um escritório disso.

E esse trabalho vai muito além da moda, porque também há toda a parte de lifestyle, né?

Acho que essa é a principal finalidade dele. E hoje acho que é o que as pessoas seguem e mais querem saber. Porque se não for estudado o comportamento, como a indústria saberá o que o consumidor quer?

Por isso ele é essencial, é a base de todo o trabalho. Porque daí se sabe a querência do consumidor, o que ele quer daqui uns anos.

Nós recebemos sinais de todas as áreas e quando percebemos também queremos aquilo. Então, esse estudo e os resultados nos impressionam. Porque as pessoas dizem ‘eu não vou usar isso’ e quando vêem já estão usando.

Na moda existe o neologismo da “empurroterapia”, que é a pessoa ver tanto as peças que acaba gostando.

Começa na confecção, daí ela faz uma propaganda com algum artista, a peça usada ela vai pro desfile, pra loja. E a pessoa acaba recebendo tanta informação daquilo que, pessoalmente ela talvez não goste tanto, mas quando vê todo mundo usando, referências que gosta adotando, ela também acaba aderindo.

Por isso existe o processo das feiras e desfiles.

Querendo ou não são os desfiles que são o glamour da coisa. As pessoas acabam querendo ser aquela modelo.

Por isso que chamamos isso de um processo de “empurroterapia”.

O consumidor de moda consome um sonho?

A multinacional fala “Eu tenho muita anilina, que pode ser feita para fazer o vermelho. Então, vamos colocar que o vermelho será a moda.” Daí o birrô de estilo passa isso para a tecelagem, ela para a indústria, daí vai para a mídia. E a pessoa que nem gosta de vermelho, quando percebe, está gostando. Porque ela não tem saída. Todas as lojas estão com a cor.

Mesmo que a pessoa não queira, ela acaba comprando, porque é o que tem no mercado.

Quais os profissionais envolvidos na produção de um birrô?

No grupo da Nelly Rodi, que trabalha com uma forma diferente, existem três polos diferentes: o criativo, o sociológico e o de marketing. Outras empresas têm maneiras distintas de trabalhar.

No primeiro grupo são 36 profissionais que prevêem as próximas estações.

Depois vêm uma equipe para cada book, que pegam toda a informação produzida na reunião das 36 pessoas e fazem os temas.

Como é feita a definição do tema?

Teve uma reunião que eu fiquei bem admirada. Um dos componentes estava fotografando pelo mundo e trouxe várias imagens de vários lugares e surgiu uma, do Egito, de uma múmia que tinha sido encontrada.

Daí foi uma coisa muito forte para eles, porque logo depois teve uma repercussão grande do tema na mídia. Então eles resolveram trabalhar por esse lado, do mistério, o Egito.

Então, têm coisas que surgem para eles e eles seguem.

É uma coisa forte. A Nelly conta em uma entrevista o que ela estava achando da tragédia de 11 de setembro e como a agência estava sentindo aquilo. Então ela fala que antes de acontecer, ela fez todas as capas pretas, com um véu sobre o book,  bem fúnebre.

Só que ela sabia que não era crise, que era outra coisa. Então, tudo foi passando essa mensagem. Sabia-se que algo muito ruim iria acontecer, mas não o que.

Como eles trabalham muito com esse grupo, se reunindo a cada três meses para conversar, eles vão conseguindo esses sinais de comportamento, até eles chegarem a uma linha de tendência.

O número de birrôs é restrito (são 165 edições de verão e 190 de inverno, distribuídas no mundo todo). Como é feita a escolha de quem terá acesso a eles?

Quando a Nelly esteve no Brasil, ela falou que eu deveria, não selecionar, mas saber para que estava apresentando o material.

Nas feiras eu atendo a todos, não tenho restrição de venda. Mas sempre alerto os clientes de que se eles quiserem o próximo caderno, devem reservar. Porque corre o risco deles não terem.

E a partir do momento em que chega ao número total, não há a possibilidade de vender mais. O que pode haver uma troca entre os agentes.

Ela não quer perder essa característica, porque o forte dela é a consultoria pelo mundo. Então, ela diz que pode fazer o book de forma limitada.

Hoje algumas confecções, tecelagens e empresas de cosméticos querem algo diferente e exclusivo. E isso dá certa exclusividade.

Na tua opinião, hoje o Brasil já consegue criar as próprias tendências?

Sim, consegue. Hoje algumas empresas têm equipes que viajam para obter outras fontes. Não para copiar ou confirmar. Uma porque nem dá tempo disso, as coleções têm que estar prontas muito antes.

Eles vão para ter inspirações. Porque é diferente a pessoa viajar e ter isso lá.

Já há uma identidade própria na moda, então?

Sim. Hoje eu vejo profissionais brasileiros que estão se destacando. Eles pararam de copiar, porque viram que isso não resolve.

Hoje é fundamental ter um curso de moda e as empresas darem valor a esses profissionais. Porque antigamente as empresas contratavam os estilistas e esperavam que junto com eles viesse uma bola de cristal. Eles achavam isso normal. Chamavam o estilista e não davam informação para ele.

Hoje as empresas estão entendendo que é preciso dar aos profissionais condições de pesquisa. Porque eles não vêm com a bola de cristal. Há a criatividade e o mercado tem que dar as inspirações.

Estamos com um mercado de moda crescente, como tu enxergas isso?

Hoje uma marca pode ter, no mínimo de três a quatro profissionais. A única coisa que eu vejo e me preocupo um pouco, é que quase todos focam na confecção. E há os acessórios, calçados, outras áreas que também são interessantes de serem percebidos desde a faculdade.

E a moda está entrando em outras áreas, né?

Claro, principalmente em decoração que hoje está, como a confecção, mudando a cada seis meses. Antigamente, cama, mesa e banho tinham uma coleção por ano e ponto.

E como a indústria reage a cada nova tendência. Porque há uma diferença de trabalho de lançamentos de coleções fora do Brasil e dentro. Como funciona?

Lá fora há uma organização diferente e muitas empresas daqui começaram a perceber isso.

O que acontece é que março e setembro são dois períodos que as pessoas daqui mais viajam. E as vezes em março está tendo um certo tema nas lojas, que as empresas trazem para cá, achando que aquele será o tema da coleção inteira.

E lá, assim como eles tabelam as cores mês a mês, eles mudam os temas. Então tem épocas de lançamento para cada um. Aqui não se trabalha dessa forma. Eles lançam tudo junto.

E isso é ruim para o consumidor. Porque ele quer ir na loja a cada duas semanas e ver novidades. E como está havendo essa mudança de comportamento, o Brasil está querendo começar a fazer isso. A mudança de tecidos e temas mês a mês.

Ou então fazer toda a coleção e produção e separar as entregas mês a mês, que é o que é mais feito. Os representantes apresentam para os compradores uma mini-coleção nova a cada pouco espaço de tempo.

A moda ainda consegue inovar?

Sim. Embora ainda se inspire em outras épocas, tudo volta completamente diferente.

O que é inovar hoje?

É ousar. Não ter medo, misturar culturas. A marca que quer atingir um público mais ousado, deve trabalhar isso. Porque isso nos trás várias referências.

Acho que é por isso que várias confecções e estilistas gostam de trabalhar com o infantil, por poderem ousar.

No adulto eles não podem tanto. Pode em um tipo de consumidor. Abrange um pouco, com o resto tem que saber dosar. No infantil não. Com ele pode-se criar bem mais.

As tendências são efêmeras?

O que eu percebo é que há uma continuação de uma estação pra outra. Antigamente elas surgiam e terminavam na mesma temporada.

Um exemplo são as peles, que permanecem há um tempo, sempre mudando o animal. Mas a essência permanece. Só há uma evolução, não uma mudança brusca. E isso eu acho bom, que a pessoa consegue explorar mais.

Começou os listrados, vieram os xadrezes. Antigamente o brasileiro via o xadrez como roupa de festa junina. Hoje ele já é moda. Mas ele precisou ser adotado pelo surf wear, para o consumidor conseguir ver ele com outros olhos.

E fenômeno do fast e slow fashon? O que é melhor para a indústria e o consumidor?

Então, o que acontece é que nós sempre temos que inventar, criar novas formas de se expor. Por isso é importante para uma empresa ter alguém de marketing. Para ter essa sacada, essa mudança. Porque é a surpresa que os consumidores querem.

O consumidor está desejando se expor menos?

Sim. Olha quanto tempo a pessoa passava dentro de casa antigamente e repare quanto ele passa hoje. Por isso que a moda na decoração está crescendo e variando.

Chegamos a um ponto em que estamos conseguindo saber tudo, de todo mundo, que as pessoas estão querendo se guardar mais.

As tendências geraram novas profissões. Como tu vê isso?

Se formos ver, muitas profissões foram extintas. Então, obviamente têm que surgir outras para repor. Mas eu acredito que as que se foram também deixam saudades.

Por exemplo, cada vez mais se falam dos artesões. As pessoas estão com vontade de voltar a fazer o artesanato para ver se começa a se resgatar essas profissões que desapareceram.

Essas heranças não podem ser jogadas fora, mesmo surgindo novas profissões. Tudo isso é linkado.

E esse trabalho que a Nelly faz liga as tendências e o clássico, né?

Os básicos não saem da cartela de nenhuma indústria. E é quase isso que ela faz dentro de cada estação. Ela trabalha o básico e o fashion. Têm empresas que vão trabalhar só o básico, como as populares.

Como tu achas que o público vê a moda hoje? A moda ainda nos identifica?

Depende. No Brasil tem o consumidor que quer ser diferente e mostra isso na vestimenta. Ou quer ser parecido com alguém, há um mix.

Mas por exemplo, o consumidor japonês. Ele se diferencia onde? No visual. Então, ele tenta se montar. Lá eles têm tudo de ponta e querem mostrar o visual.

O mais comum aqui é tentar se parecer com outra pessoa que o consumidor tem desejo de parecer.

Por isso que todo mundo fala que o que a Gisele usa, vende.

Onde a pessoa pode buscar a tendência?

Hoje as empresas passam isso pro consumidor. Várias revistas falam. Agora, se ele quiser se antecipar, existem sites e cursos que falam disso, geralmente nas feiras de moda. Lá vai ter isso.

Texto e entrevista: Douglas Petry

Fotos: Rafael Delfino

Agradecimento: Curso de Design de Moda/Univates

Diálogo entre arte e moda

"O que eu faço em teatro, se fosse para a TV ou cinema, seria em pequenos nichos, desmontar a roupa, transformá-la em tecido e remontar. Eu não pego a peça e improviso. Recrio ela toda."

No terceiro dia de Semana Acadêmica do curso de Design de Moda da Univates, o estilista e figurinista Antonio Rabadan falou sobre sua carreira e trabalho.

Ele tem 14 anos de carreira e já no seu primeiro trabalho. Rabadan estudou arquitetura, mas largou o curso para entrar na moda e poder seguir a carreira com figurinos.

A história dele deu tão certo que hoje ele dá aulas de figurino na Feevale e colabora com vários espetáculos famosos no estado.

Entre seus estudos, está a arte, onde ele tenta entender se a moda é uma arte hoje. O figurinista deu uma declaração que nós adoramos e já está no nosso mural de inspirações. “A moda é a arte do hoje.”

Veja abaixo a nossa entrevista exclusiva com ele.

It – Conte um pouco do seu começo, desde a parte de cenografia até a migração para o figurino.

Rabadan – Eu estudava arquitetura e fui fazer um curso de teatro, lá eu acabei sendo convidado pra fazer um curso de longa duração, que serve para profissionalizar, para poder tirar registro e trabalhar no eixo Rio – São Paulo. E acabei enveredando por esse caminho.

Houve várias coincidências. A de eles precisarem alguém que desenhasse os figurinos, depois a verba do governo não ser suficiente para pagar um profissional, eu acabar assumindo essa parte e tendo um reconhecimento em cima disso.

Tu recebeste um prêmio, certo?

Eu recebi o Açoriano de melhor figurino de 1996. Era meu primeiro trabalho como profissional e já fui premiado.

Daí, automaticamente, a parte de ator diminuiu, porque a demanda de figurinos aumentava e eu me direcionava cada vez mais para essa parte.

Nesse meio tempo entrou a universidade de moda. Estudando, eu podia entender um pouco mais do assunto e saber de que forma isso se articulava com o que eu estava desenvolvendo no teatro.

Teu primeiro figurino veio de um guarda-roupa cheio de peças velhas. Até hoje tu trabalhas com reaproveitamento. Como foi e é trabalhar com isso?

Agora isso tá na moda, reaproveitar, ser ecologicamente correto. Mas eu acho que o teatro já nasceu sustentável.

Quando eu fiz os trabalhos em TV, conheci a Natália Duran (figurinista da Rede Globo), e ela mostrou que nesse meio também fazem isso. Eles têm uma verba insuficiente e têm que se virar. E o caminho é o reaproveitamento.

O que eu faço em teatro, se fosse para a TV ou cinema, seria em pequenos nichos, desmontar a roupa, transformá-la em tecido e remontar. Eu não pego a peça e improviso. Recrio ela toda.

Isso é legal para cinema e teatro, porque é horrível quando tu vais fazer um filme ou uma peça e o ator tem 70 anos e veste uma roupa nova. Dificilmente uma pessoa dessa idade ficará o dia todo com uma roupa assim.

A peça tem que ter uma vivência e um desgaste. E é meu trabalho procurar isso no material reutilizado. Esse pano já tem um puído e, mesmo que se faça uma roupa nova com ele, continuará trazendo essa imagem.

Pra figurino isso é excelente, pois o deixa verdadeiro para quem está usando e para a cena. Em cinema é muito mais trabalhoso. Por exemplo, em O Gladiador tem uma cena de uma cúpula de pessoas vestindo roupa branca. Aquilo não é branco, é areia. Porque o branco não é aceito na filmagem por causa do excesso de luz. Essas coisas não são sabidas pelo público, mas são importantes para quem faz o trabalho.

Tu fizeste Tv também, o que foi?

Sim, eu fiz trabalho em TV. Algumas coisas que eu fiz, tanto na PUC, quanto na UFRGS, foi fazer figurino para os curtas que os alunos desenvolviam.

Nós vemos a arte se expandindo hoje, tanto o cinema quanto o teatro. Como tu enxergas isso? É um gerador de trabalho para profissionais da tua área, né?

Sim. E dependendo da montagem, como novela, são vários núcleos a serem vestidos. Cada um tem um responsável. Em média são 150 pessoas a serem vestidas por dia em apenas uma obra.

Sem contar continuidade e outras complicações do processo. As roupas têm que estar lavadas, estarem em boas condições, têm que ter uma identidade proveniente de pessoas da moda.

Simplificando, os figurinos de TV e seriados são feitos por produtores de moda. Eles têm que produzir roupas para elas, depois transformar figurino para uma personagem. A gente diz que esse é um caminho novo, mas ele já existe há anos e só não era desvendado.

O trabalho do figurinista tem muitos detalhes?

Sim. Dependendo do figurinista, ele não faz acessórios. Eu gosto de fazer para construir a roupa inteira e ela ter a mesma identidade, serve para as coisas se comunicarem.

Às vezes a pessoa pode trabalhar com equipes distintas e, pelo processo ser muito rápido, tudo é feito correndo e acaba se desencontrando.

Então, quando o material é concentrado pela mesma pessoa ou equipe, diminui a parte de conversa com pessoas externas e é seguida a mesma linha de pesquisa e execução.

A roupa tem que servir para apresentar a personagem e contar um pouco da história ou ela tem que ser secundária?

Se formos ver um espetáculo e só conseguirmos prestar atenção no figurino, é porque aí há um problema. Com certeza ele será premiado, mas não está a serviço da história.

O ideal é quando assistimos ao filme, peça, ou novela e não conseguimos distinguir o que gostamos. Se foi a história, a trilha sonora, o figurino, se foi o ator, diretor. Aí há uma unidade cênica, que é o ideal.

Nesse caso, todos os que estão trabalhando conseguiram chegar a um consenso estético. E isso é complicado, porque qualquer pessoa, esteja ela começando ou não, tem dificuldade de ir além da moda.

A moda tem que atender ao mercado, a uma necessidade. O figurino trabalha isso e junto há uma necessidade cênica, uma necessidade pedida pelo texto, as necessidades do ator, uma tradução das ideias do diretor: é uma montagem futurista, é uma montagem introspectiva, é realista, é farsesca?

Na realidade, a palavra para quem quer trabalhar com moda ou figurino é “processo”. Ou criativo, ou de execução… É um processo e não uma coisa que se compre pronta.

Porque as pessoas quando vêm trabalhar ou estudar moda, pensam que é como ir ao shopping fazer compras. E isso é a única coisa que ela não faz. Se ela produzir um desfile, a única coisa que não fará é sentar na primeira fila para assistir. Ela pode varrer a passarela, mas não assistirá.

Qual a diferença entre fazer um figurino, um styling para desfiles e fotografar um editorial? Até que ponto um se conecta com o outro?

Eles se conectam a partir do momento em que todos têm um processo para isso. Eles se distanciam por serem veículos distintos.

Mesmo que eu tente aproximar vestindo uma personagem com roupas da moda, como em O Diabo Veste Prada, por exemplo, ali ele é um figurino. Eu posso estar usando aquela roupa de marca, ela tem que ter a ver com a personagem.

Uma coisa que ajuda a entender é: eu não sou esportista, não gosto de caminhar, de usar roupa mais leve, então eu não posso estar vestindo abrigo. Dentro do meu universo, preciso me vestir de acordo. Isso é o figurino.

Quando levamos para o editorial, eu quero comunicar alguma coisa, então eu posso usar elementos cênicos – se não for um editorial comercial. Se for, eu tenho que vender o produto.

O que direciona o editorial, é o foco. Se ele numa dona de casa, até uma personagem pode estar fazendo. Pode estar a Marieta Severo, da A Grande Família, posando como modelo. Mas daí é porque esse é o foco.

Tu observavas figurinos antes de trabalhar com isso?

Não. Tanto que fui trabalhar com isso por acaso. E até hoje eu olho para uma roupa e não sei dizer se é figurino ou moda.

Que figurinos de outras pessoas te marcaram?

Não sei te dizer isso. Mas eu gosto muito do trabalho do Almodóvar. Ele sabe falar com os espanhóis, ele fala da terra dele e traduz isso bem no filme, nas personagens e em quem ele chama para fazê-las, que sempre são estilistas.

Já teve Jean Paul Gaultier, Yves Saint Laurent, e isso é legal. Ele usa a linguagem de moda que aquela personagem poderia estar usando naquele momento.

Eu ainda não vi A Pele que Eu Habito, mas tem muito a ver com uma coisa que eu quero pesquisar. É a pele como figurino. Daí eu reflito se a pele que eu tenho no meu corpo é a que me traduz? Será que esse corpo que as pessoas vêem é o que me representa?

A roupa seria a pele que queremos mostrar para o mundo?

É uma segunda pele. Eu gosto da Katia Castilhos (estilista e autora de livros), que diz que nós temos um corpo morfológico, mas tentamos nos diferenciar um do outro através da roupa e das coisas que fazemos. Tudo o que fazemos nele nos distancia e conta algo da pessoa que está dentro dele.

Às vezes não nos damos conta do que vestimos. A pessoa que usa preto, sobreposições, a gente sempre conta algo de nós sem raciocinar, intuitivamente.

Na minha conversa de ontem com o Nakao, falamos sobre isso. Hoje a moda ainda representa quem a pessoa é?

Sim. Tem aquilo que comportamos, na minha opinião. A pessoa pode estar vestindo Dolce & Gabanna, mas se eu percebê-la primeiro, ao invés da marca, é porque ela comporta aquela roupa.

Agora, se ela entra no ambiente e eu só vejo a marca, como agregação de valor à pessoa, é porque ela não comporta a roupa. Aquilo não faz parte dela, do universo que ela vive, do que ela tem pra conversar ou fazer com as pessoas a sua volta.

Hoje em dia acontece muito das pessoas acharem que a roupa pode esconder a personalidade, o conhecimento. E isso não pode. Ela tem que ressaltar isso e fazer com que fique em evidência.

O que eu vejo de problema nisso tudo é que a moda está na moda.

Popularizou demais?

Isso. Além de que, vocês verão por aqui. O curso está na segunda turma de alunas. O legal é fotografar todas elas. E daqui um ano e meio, ou dois, fotografar de novo.

Elas vão se desmontando, porque no começo têm uma visão muito superficial do que é ser um trabalhador da moda. E nisso a moda se aproxima muito do teatro.

O trabalho nesses casos é muito assíduo. Aqueles momentos de brilho são efêmeros e rápidos. O trabalho do dia a dia é aquele de formiguinha, que é construído pouco a pouco para adquirir o conhecimento e encontrar o caminho.

Isso elas aprendem. Então os cabelos vão ficando menos coloridos, as roupas menos alternativas.

Sem falar da parte comercial. Porque entramos na faculdade achando que vamos sentar e criar, as coisas surgirão do nada, as pessoas entenderão e nos aplaudirão. Mas isso não acontece.

Quando uma pessoa é criadora, de fato, e assume isso dentro de uma empresa, o que ela menos recebe é aplauso e o que ela mais tem pela frente é trabalho.

Com a globalização tudo se misturou. Hoje você pode fazer moda de roupa, de comida, de tudo.

Moda e arte: quem se apodera de quem?

Vou te dizer que a arte e a moda sempre se confundiram, uma se apropria da outra. Se pensarmos na Monalisa, por exemplo, ela está vestida, aquela roupa tem alguma coisa a ver com aquele período histórico. Portanto, há uma apropriação da vestimenta, porque ela faz parte da construção da personagem.

Então, eu acredito que nós vemos isso hoje, mas já acontecia há muito tempo. Algumas coisas são datadas dos séculos XVIII, XIX e só foram assimiladas na moda nos anos 80. E o grande questionamento dessa apropriação é a pergunta que tanto se faz hoje: se moda é arte manifesta.

Isso gera discussão porque há uma incerteza, esse é um terreno híbrido, dependendo de como se olha, o recorte que faz, o caminho que se olha.

O que quero dizer com isso é que há um caminho que está sendo investigado, que continuará sendo e que pode demorar anos até chegar a uma resposta, ou não. Eu acho que não se chegará a lugar nenhum, será uma discussão eterna.

Uma coisa se apropria da outra. As performances, por exemplo, surgiram porque a arte sentiu a necessidade de dar movimento aos quadros e pinturas e precisavam de interação.

E quando houve a fusão, ainda no dadaísmo, isso tomou uma força grande nas artes plásticas. E hoje vários artistas vão lá e pegam Vogue, Louis Vuitton, outras grandes marcas e fazem críticas sociais em cima delas.

Daí está lá a modelo ou  performancer nua, fazendo isso.  Então, é cada vez mais difícil de dizer.

O que tu achas de figurinos populares, como de novelas, por exemplo, influenciarem a forma das pessoas se vestirem?

O trabalho do figurinista já é feito pensando nisso. Eu lembro da novela Laços de Família, quando a personagem da Vera Fischer apareceu vestindo um biquíni, tomando banho de piscina, e depois colocava um roupão de seda e se encontrava com o Gianecchini.

Aquela peça, na moda, vendeu horrores. Mas as pessoas não a queriam, mas sim o corpo da Vera Fischer e o Gianechinni, o sonho que estava sendo vendido ali.

E isso que a novela faz. Ela vende e é um meio de comunicação de massa. É muito mais comercial e menos artística. Os seriados e especiais seguem outro caminho. Eles não geram tanta venda, mas sim arte e questionamento.

Mas a novela e o figurino dela bebem da moda, do que está vindo e antecipam.

Busca-se uma referência fora do país para poder pesquisar isso, ou, hoje nem se vai mais para fora, se faz uma pesquisa interna dependendo do profissional. Mas a pessoa de novela suga desses processos da moda e põe em cena e dependendo de como aquela personagem é recebida pela mídia, daquilo que ele está fazendo, vira a moda do momento.

Eu não consigo falar disso e não citar a última personagem da Deborah Secco. O que está acontecendo na moda agora? É shortinho e sainha curtinhos, e isso é referente ao que a personagem dela usava.

Os figurinistas muitas vezes vêm buscar coisas no Sul. Principalmente Novo Hamburgo e Serra. Porque as marcas dão o seu showroom, do que está vindo para a próxima estação, para a novela, porque se isso aparece em uma personagem, vende.

Claro, dependendo da marca, ela fica possessa se a roupa que tem um valor agregado e é mais cara, aparece numa personagem de classe baixa. Mas mesmo assim vende.

Quando eu trabalhava em uma marca, tinham uns casacos que foram para a novela da Senhora do Destino, onde a Renata Sorrah era vilã, tinha uma péssima conduta. Mas uma peça – um casaco de couro – foi dada para ela. Vendeu muito e a personagem não era a protagonista, nem a boazinha da novela.

Porque ao mesmo tempo em que não havia a cena do romântico e belo, ela mostrava a imagem do poder. Era uma mulher forte e isso vendeu.

Isso quer dizer que nós abastecemos e reabastecemos.  A TV e o cinema se abastecem da moda ao mesmo tempo em que ela se abastece deles. Mas daí já numa parte comercial.

Tanto tu quanto o Jum Nakao disseram que tudo o que o estilista cria deve ter um significado para quem consome. Como tu enxergas os por quês da moda?

Depende pra onde direcionamos. Se a roupa é feita para vestir, atender a uma necessidade fisiológica, é uma coisa. Ela é feita para gerar venda.

Agora, se eu estou fazendo isso para questionar o que está acontecendo comigo e a sociedade que está em meu entorno, é outro tipo de roupa, com outro significado e valor agregado.

O que faz uma calça jeans da Diesel custar mais de mil reais e uma da C&A cento e poucos? Não é o material. Tudo bem que uma tem um pouco mais de qualidade que a outra, mas isso também é relativo, porque hoje em dia as peças produzidas em grande quantidade têm qualidade, senão não vendem.

Mas o valor agregado tem um questionamento muito maior em cima da peça. Então o que significa uma pessoa que usa Diesel? Ela é descolada, esportiva, bem resolvida na vida. É isso que ela paga quando compra a roupa. É o sonho de consumo que a peça está dando. Ela dá valor ao comprador.

Um grande exemplo disso é a China, que agora está em voga na mídia. Algumas tribos, um grupo mais dark, onde as meninas são meio bonecas, se montam todas. Porque eles fazem isso? Porque são muito parecidos e querem se diferenciar, mostrar sua diferença para os outros. Quando olhamos para isso vemos claramente a diferença.

Então, uma pessoa quando se veste de uma maneira está tentando mostrar ao outro que é diferente e isso nos faz cair novamente no filme do Almodóvar, qual a pele que eu habito?

No caso, para não sermos tão drásticos, mexemos na segunda pele, que é a roupa. Algumas pessoas nem fazem isso, mudam direto a própria pele. Tatuam-se, se enchem de piercings, tamanha a necessidade de deixar a carcaça que a move semelhante ao interno.

Hoje quem mexe com a primeira pele não é mais visto com tanta estranheza quanto era um tempo atrás, né?

A gente tinha um padrão. Hoje nós fugimos disso. As pessoas não querem ser mais um número. A gente quer atenção para si mesmo e não algo automático. Se tu fores ao restaurante e for bem atendido, com atenção, tu se sentirás diferente e voltará àquele lugar. É o que as pessoas buscam hoje.

Texto e entrevista: Douglas Petry

Fotos: Rafael Delfino

Agradecimento: Curso de Design de Moda/Univates

Jum Nakao e as mudanças na moda

"Eu vejo que são necessárias escolas que formem novos pensadores, pessoas que sejam capazes de fazer a diferença e não que entrem para continuar a reproduzir um modelo que já está desgastado e nos confina a ser um país reprodutor e não gerador de tendências."

No segundo dia da semana acadêmica do curso de Design de moda da Univates ao invés de palestra os alunos puderam conferir um workshop com o estilista paulista Jum Nakao.

Para quem não sabe, em 2004 ele fez um dos desfiles mais marcantes dos 15 anos de São Paulo Fashion Week. A coleção era toda feita em papel e foi rasgada ao final.

Nakao começou a carreira nos anos 80, trabalhou em grandes marcas e em paralelo fazia suas coleções autorais. Hoje ele ministra aulas e workshops pelo Brasil, ensinando jovens estilistas sobre o meio da moda e técnicas de costura.

It – Em uma entrevista você disse que entrou para o mercado da moda porque via no meio uma possibilidade de transformação e libertação. Seu começo foi nos anos 80. Como você vê esse panorama hoje?

Jum Nakao – Acho que por uma questão cultural do consumidor final, eles são menos capacitados do que anos atrás. Hoje as pessoas não fazem tanto uso da moda no sentido que eu enxergava na época.

Aquele era um momento em que se identificavam valores na forma que a pessoa se vestia. Isso caracterizava grupos e culturas através da indumentária. Por isso eu percebia essa possibilidade da moda criar esses hábitos. Era uma forma de utilizá-la para a transformação.

Hoje eu percebo que a ela perdeu um pouco a característica de identidade, de que através dela a pessoa mostre quem é. As pessoas usam muito mais a roupa do que a moda. Ela não expressa mais modos e expressa, hoje em dia, muito mais uma forma de se enquadrar no meio do que na cultura. Foi deixada de lado a questão dela como cultura, informação.

A moda passou a simplesmente estar, não ser.

Como você vê o mercado atual de moda nacional?

Hoje o número de escolas, o interesse, a mídia gerada, as semanas de moda e os pólos se profissionalizaram demais. Nos anos 80 não existia esse cenário. Mas ao mesmo tempo há um grande abismo entre quem pensa, estuda, desfila, faz e promove, da grande massa.

Eu acho que a sociedade ainda está marginalizada em termos culturais. E essa inclusão estético/cultural, a chamada economia criativa, através do design é fundamental.

Hoje nós temos uma economia de produtos e não uma economia criativa quando tratamos de moda. E isso precisa mudar rapidamente e estamos no momento certo. Hoje as pessoas podem consumir design por estarem inseridas economicamente.

O consumo não deixa de ser uma forma de educação, formação e exercer política, porque quando você compra uma marca, prestigia a ética e o produto dela, o comportamento, os comprometimentos e automaticamente está dando mais do que um voto. Está dando seu dinheiro para que ela sobreviva e se torne representativa dos seus valores no mercado.

Por isso precisamos cuidar para que não nos tornemos um país rico e burro, mas sim rico e com cultura.

Moda foi tua primeira opção profissional?

A primeira área que eu tentei foi na computação, internet e eletrônica nos anos 80. Só que o que eu percebi, foi que a escola da época não percebia todo esse potencial. Infelizmente nós temos um modelo de ensino que precisa ser repensado. Nós apenas estamos aptos e pensando em modelos que reproduzem padrões e não que geram novos. Naquela época eu queria pensar em comunicação, internet, interatividade, tudo aquilo que era novo.

Quando eu tentei, dentro da academia falar disso, o objetivo era trabalhar dentro de uma linha de produção. E nela tinha que produzir quantidade e não qualidade.

Eu vejo que são necessárias escolas que formem novos pensadores, pessoas que sejam capazes de fazer a diferença e não que entrem para continuar a reproduzir um modelo que já está desgastado e nos confina a ser um país reprodutor e não gerador de tendências.

O Brasil consegue criar sua própria moda ou ainda seguimos aquilo que é mostrado lá fora?

Não. Reflete muito pela questão do povo não se identificar com o que é Brasil, com o que são. Eles procuram parecer sempre gringos. E isso continuará, porque não há cultura o suficiente. Ela permite que a pessoa escolha seus caminhos, que se olhe no espelho e se goste. Falta a autovalorização, gostar de ser brasileiro. Isso ainda não está na essência e tem que ser construído.

É a falta de não termos produzido meios culturais maiores que futebol e carnaval ao longo de muitos anos. É óbvio que esse universo existe, mas é num meio ainda muito restrito. Isso acontece na música, nas artes plásticas, no cinema, na moda. Mas a parcela de pessoas que tem acesso a essas informações é muito pequena.

Você largou a Carmim para participar como label própria do Phytoervas Fashion. Conte um pouco sobre essa experiência.

Nos anos 80, antes de tudo, junto com mais dois jovens estilistas, eu pensei numa semana de moda. Nós lançamos aquilo que chamávamos de cooperativa de moda, onde desfilávamos trabalhos autorais, independente da indústria em que trabalhávamos.

Mas naquela época, moda ainda não estava na moda. Você ia numa banca de jornal e não encontrava revista de moda.

Quando a moda entrou na moda?

A partir dos anos 90, quando surgiram os eventos São Paulo Fashion Week e Phytoervas Fashion, que criaram um calendário oficial, revelaram novos talentos e passaram a promover novos estilistas.

Mas sempre dentro dessa parcela reduzida de formadores de opinião, nunca numa escala que afete a realidade. Para isso, é preciso a massa.

Voltando ao Phytoervas.

Nos anos 80 vimos que era muito cedo. Fizemos duas edições e paramos. Em 1996, a moda sofreu um boom de abertura de mercado, atenção da mídia e daí eu decidi que era de novo o momento de mostrar meu trabalho autoral.

Mandei meu projeto para a organização e ele foi considerado a revelação da edição. E a partir de então não parei de mostrar meus trabalhos autorais em paralelo à indústria, até que em 2002 migrei para o SPFW, onde desfilei até 2004, quando eu realizei meu último desfile, com as roupas de papel.

Eu ia mesmo te perguntar sobre ele. Ele foi um boom na mídia, todo mundo falou dele. Como isso refletiu?

Eu acho que foi um desfile que ultrapassou barreiras. Jamais esperava tamanha repercussão. Ele estabeleceu diálogo com as pessoas das artes plásticas, cinema e teatro.

Foi considerado o desfile da década quando o SPFW completou 10 anos. Além de que, foi convidado para representar o país no Ano do Brasil na França. E o Museu de Moda de Paris o considerou um dos desfiles do século.

Curadores de arte e pessoas do mundo inteiro enxergaram novas fronteiras, talvez menos estanques entre áreas, permitindo que hoje falemos de design/arte dentro de um novo contexto.

Abrangeu muito mais do que o mundo da moda. Hoje se falarmos sobre o desfile de papel, pessoas que nunca se interessaram por moda sabem do que se trata.

De onde surgiu a idéia de rasgar tudo no final? (Ele faz um paralelo com o jornalismo)

Talvez você não lembre de muitas palavras que você escreveu, ou das mais impactantes. Mas você se recorda da mensagem. Falte-lhe talvez a palavra, mas não o pensamento. Elas podem ser rasgadas, esquecidas, mas o pensamento permanece.

Na moda acontece o mesmo. Por mais que trabalhemos com a efemeridade, o passageiro, nela também tem que existir permanência. Precisa haver a percepção daquilo que também é imaterial, do que está por trás: o pensamento. Por isso foi rasgado.

Para mostrar que não importa qual seja o material, a roupa poderia ser feita no que fosse, mesmo em algo frágil como o papel, mas isso é o que menos importava, tanto que por fim nós mesmos rasgamos, destituímos o contato das pessoas com o material, para elas perceberem o que era imaterial, porque mesmo ele rasgado, destruído, permanecia na memória delas.

A intenção era justamente essa. Fazer com que as pessoas enxerguem o invisível. Até por isso que o nome do projeto é Costura do Invisível.

Como você enxerga o SPFW hoje, com uma comercialização maior do mercado e marcas que trabalham cada vez menos o conceitual?

Não é um problema do evento, nem das marcas, é cultural. O que modula o mercado é o consumidor. Se o público mudasse, a indústria de transformaria.

Se elas quiserem consumir coisas melhores, a indústria não terá como oferecer outra coisa. Portanto, nós precisamos capacitá-los. Devemos consumir coisas que nos tornem mais humanos e melhores.

Essa tua coleção gerou um documentário. Como foi a experiência?

Quando definimos o desfile de papel, decidimos o rasgo desde o início. Então, sabíamos que depois aquele produto não existiria mais. E gostaríamos de compartilhar o projeto com mais pessoas além das 1200 que estariam dentro da sala de desfile naquele momento.

Como foi um trabalho de 700 horas de execução, usamos mais de meia tonelada de papel, começamos a registrar desde as primeiras reuniões, todo o processo, para que mais pessoas percebessem toda a complexidade da realização. Para que aquilo realmente pudesse ultrapassar aquele espaço e tempo do desfile.

Como começou seu trabalho com papel?

Começou nesse desfile. Eu só escolhi o papel porque queria mostrar que a significância está além da insignificância da matéria.

O material não tem sentido, o que tem sentido é o resultado, aquilo que vai definir o meio. O que está entre o observador e o conteúdo.

O que lhe inspira na hora de criar?

Eu digo que é andar de bicicleta. Na verdade é uma metáfora.

Quando estamos em contato com o nosso interno, num passeio de bicicleta pela cidade e percebemos as coisas bonitas e feias. E essa conexão nos alimenta e faz criar algo para melhorar a realidade de onde moramos.

O que me inspira é a transformação do outro. É uma questão ética. E melhorar o outro é a minha. Acredito que modificando alguém, começamos a mudar o mundo.

O estilista hoje em dia tem a idéia, mas devido ao mercado não consegue transpassar o que realmente deseja?

Sim. O consumidor está longe de saber dos seus direitos.

Por que?

Educação e cultura. Nós temos muitas pessoas alfabetizadas, mas educar está muito longe disso. “Não jogue o papel no chão, não compre o que é mais barato, não tente levar vantagem.”

As pessoas procuram ter aquilo que é mais barato, em maior quantidade, mas eu acredito que esse não é o caminho.

Senão aquela pessoa que faz com carinho e ética tem que fechar porque há alguém que faz mais barato e todo mundo vai lá.

O seu começo no meio da computação influenciou sua carreira na moda? Como você enxerga a tecnologia no meio hoje?

A tecnologia é fundamental em qualquer área hoje, porque ela permite o “ctrl + z”. Se você errou, pode voltar. E a possibilidade de errar é fundamental para quem cria. Porque criando assumimos riscos. E mesmo com ela ainda existe o risco da não-aprovação do outro. Por mais que lapidemos muito, ainda pode haver rejeição.

A tecnologia não é um fim, ela é um meio. E as pessoas têm que fazer bom uso dele.

E como ela ajuda na moda?

Ajuda na troca de informações, possibilita a criação de novas plataformas criativas, outras colaborativas, permite que tenhamos uma capacidade de visão do corpo-humano, de materiais, facilita uma precisão de projetos que nunca tivemos. E ainda assim ela é pouco usada por medo.

Por que as pessoas têm medo?

Porque elas têm medo de, mesmo podendo errar, fazer isso. Quando as trazemos para o mundo real, vejo como elas têm medo.

Aqui (no workshop), elas não usam tecnologia. É só tesoura, fita-crepe e as mãos. E o fato delas terem se distanciado tanto permitiria que elas arriscassem mais. Mas ainda assim, ficam com medo.

Hoje em dia vale a pena investir num negócio de moda?

Vale a pena desde que se assumam riscos e se pense em novas plataformas comerciais e de produtos.

Se uma pessoa entrar no ramo para fazer o mesmo que uma marca de grife faz, os clientes preferirão comprar da marca de grife. Se ela fizer o mesmo produto que todos fazem, seguindo tendências, mas sem copiar, isso representa um pequeno espaço que é infinito.

Só que ninguém está a fim de fazer isso e ninguém ousou ir.

O que um bom profissional da moda precisa ter?

Para ser um bom profissional, a pessoa precisa ser extremamente curiosa, no sentido de investigar, não ficar na superfície. Ela precisa se interessar não apenas por moda, mas pelos hábitos das pessoas.

Pelos hábitos de leitura, de música, de tudo o que compõe o conteúdo das pessoas. A moda é uma forma de traduzir aquilo que elas são. Então, o profissional precisa estar conectado com o mundo e a partir daí pensar no que eles gostariam de criar.

Entrevista: Douglas Petry

Fotos: Rafael Delfino

Agradecimento: Curso de Design de Moda da Univates